Sentado, ali, em frente àquele espelho ancestral, com as bordas desgastas onde ainda se viam alguns bocadinhos de talha d'ouro brilhante que resistiam ao anos, Carlos encolhia-se com medo do espelho que ali vivia desde a sua infância. De vez em quando retraía os lábios num esgar furioso que deixava à mostra os dentes amarelos e podres.
Não se conseguia mexer por mais que tentasse. Os seus músculos impediam-ne de fazer qualquer movimento que fosse. A cadeira, também antiga, onde Carlos estava sentado ranjia violentamente como se se fosse desmoronar a qualquer momento.
Carlos lambia o suor dos lábios, afincava as unhas na madeira. Não conseguia respirar. Aquele quadro apoquentava-o de tal maneira que o seu coração parecia que ia explodir num tremendo e abafado silêncio, para não perturbar a sua mãe, que vivia naquele espelho.
Tocaram à porta. Alguém entrou.
Aquela figura feminina de decote provocador, lábios carnudos, cabelos longos, brilhantes e sedosos, como teias de aranha. Há uns meses Carlos sentiria atracção por tal personagem, mas agora, nunca mais...
A mulher apena disse "Carlos..." e ele deixou-se cair para o chão carunchoso, fazendo enorme estrondo. A mulher apressou-se a acudi-lo, mas o cheiro a urina repugnou-a.
Carlos sofria por dentro. Os seus olhos, revirados, pareciam pérolas cobertas de sangue. A mulher pôs as suas mão na cara de Carlos e, enquanto barba grossa e comprida,lhe magoava a palma da mão, Carlos acalmou. Olhou para a mulher, já coberta de suor, levantou-se do chão carunchoso e começou a chorar.
Limpava os olhos com as mangas do casaco castanho e roto. Agarrou no espelho, que por momentos encadiou a mulher, e lançou-o ao chão...
A mulher chorava cada vez mais. Carlos gritava de dores. Agarrou num pedaço de vidro e cortou o seu próprio pescoço.
O vidro frio depressa aqueceu mal tocara as veia de Carlos, repletas de sangue quente. Tinham-se passado 7 anos da morte da sua mãe e ele caíra na droga. Aquela mulher tinha sido sua mulher e a mãe dos seus filhos. Fugiu, encharcada em lágrimas, enquanto Carlos ficou a morrer. O sangue a fervilhar de cobardia e dor entrava pelas frechas do soalho. Carlos morreu. Os pássaros cantaram de dor, nessa Primavera.

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